O Citroën DS é frequentemente apontado como um dos automóveis mais revolucionários de sempre. Revelado no Salão de Paris de 1955, destacou-se de imediato pela sua linha ousada e aerodinâmica, desenhada por Flaminio Bertoni e André Lefèbvre, e continuou a causar espanto à medida que se iam conhecendo as muitas soluções técnicas inéditas que trazia.
A intenção era clara: criar uma berlina (muito) confortável, sem qualquer pretensão desportiva. Ainda assim, o modelo acabou por ser «apanhado» pelo olhar atento dos pilotos de ralis da época.
E havia razões para isso. Entre a aerodinâmica cuidada, o comportamento fora de série (muito por mérito da lendária suspensão hidropneumática), a tração à frente - algo pouco habitual naquele período - e os travões de disco dianteiros, o DS reunia argumentos que podiam transformá-lo numa séria arma para os ralis.
O ponto fraco era o desempenho do motor - começou com um 1,9 l de 75 cv -, mas a forma como enfrentava pisos degradados era incomparável. Essa capacidade permitia-lhe circular a velocidades mais altas em maus pisos, anulando parte da desvantagem face a carros mais potentes.
Assim, o Citroën DS acabou quase «empurrado» para a competição - embora a maior parte dos pilotos preferisse o mais simples ID. A pressão sobre a Citroën foi significativa, com vários nomes a exigirem apoio da marca do duplo chevron para o rali de Monte Carlo de 1956.
A construtora francesa aceitou e, poucos meses depois, seis pilotos franceses alinharam na prova mais mediática do mundo com suporte oficial. A estreia do «boca de sapo» nos ralis gerou enorme expectativa, mas, dos seis carros que partiram, só um terminou - e fê-lo no sétimo lugar.
O arranque não foi animador. Porém, três anos depois, e já após alguns resultados negativos, a maré mudou: Paul Coltelloni venceu o rali de Monte Carlo de 1959 ao volante de um ID 19 e, nesse mesmo ano, acabaria por conquistar o Campeonato Europeu de Ralis.
Esse triunfo bastou para reacender o interesse da Citroën pela modalidade. A marca gaulesa avançou mesmo para a criação de um departamento de competição inovador, sob a liderança de René Cotton.
Vieram depois vitórias de peso em França e na Finlândia, com René Trautmann e Paulo Toivonen aos comandos dos ID 19. E, em 1963, no rali de Monte Carlo, cinco Citroën colocaram-se em cinco lugares do top 10 final.
Também em Portugal haveria lugar a vitórias para o «boca de sapo», embora só em 1969. Isto depois de participações no rali Safari de 1965 e de um novo (e polémico) triunfo em Monte Carlo, em 1966 - um rali infame, ainda hoje cercado de controvérsia, por causa da desclassificação dos três Mini Cooper S que lideravam e do 4.º classificado, um Ford Lotus Cortina - uma história para outro dia.
Seria no Rally de Portugal de 1969 que o Citroën ID 20 acabaria por «voar» até à vitória, nas mãos de Francisco Romãozinho.
Rally Internacional TAP de 1969
Numa altura em que o Rally de Portugal ainda não integrava o Campeonato do Mundo de Ralis e tinha um formato muito diferente do atual, Francisco Romãozinho foi a figura central, conseguindo triunfar na edição de 1969.
Tony Fall, ao volante de um Lancia Fulvia HF 1600, surgia como o principal candidato. E, ironicamente, acabaria por ser uma das peças-chave para o desfecho que deu o título a Romãozinho.
O britânico - vencedor do Rally de Portugal no ano anterior - está ligado a uma das histórias mais insólitas (e mais faladas!) da prova portuguesa. Depois de retirar a liderança a Fernando Batista, em Montejunto, Fall chegou ao Estoril no comando, com uma vantagem confortável sobre Romãozinho.
Mas o que se seguiu apanhou quase todos de surpresa. No controlo final, o inglês apresentou-se com a namorada dentro do Lancia Fulvia HF 1600, algo proibido pelo regulamento, e acabou por ser desclassificado.
A fama do episódio atravessou décadas, embora existam versões alternativas quanto ao que realmente esteve por trás do caso. Que Fall foi desclassificado e que a namorada seguia no carro é indiscutível: são factos.
Ainda assim, há quem sustente que este foi o expediente encontrado pela organização para o afastar sem gerar grande polémica, na sequência de suspeitas de que o inglês teria trocado de carro durante uma das etapas.
A verdade completa poderá nunca ser conhecida, mas o que fica registado é que para a história fica a vitória de Francisco Romãozinho ao volante de um Citroën ID 20.
Sobre o exemplar usado em Portugal, os dados disponíveis são poucos. Ainda assim, estima-se que o ID 20 de Romãozinho mantivesse o motor a gasolina de quatro cilindros com 1985 cm³ e 91 cv do modelo de série.
“Era grande, mas guiava-se como um Mini”
A frase é do próprio Romãozinho, dita em 2015, no contexto do 60.º aniversário do modelo francês, numa entrevista à Rádio Renascença.
“Era um carro muito à frente da sua época”, admitiu o piloto natural de Castelo Branco, falecido em 2020. “Só para dar um exemplo, na altura, já tinha uma caixa sequencial automática, algo que só muitos anos depois chegou aos carros de Fórmula 1”, acrescentou.
Na mesma conversa, Romãozinho explicou que a ligação ao célebre «boca de sapo» era “uma relação de amor” e que sentiu “muita pena quando ele deixou de ser produzido”, em 1975.
O piloto evocou ainda a suspensão hidropneumática da berlina francesa, reconhecendo que essa era “a parte espetacular do carro”. E, apesar de ser um automóvel grande - 4826 mm de comprimento -, “guiava-se como um Mini”.
Piloto oficial Citroën
Romãozinho foi também o primeiro piloto português de ralis a conduzir um carro oficial, um Citroën DS 21. Em 1973 regressou ao Rally de Portugal, já com a prova integrada no Campeonato do Mundo de Ralis, agora ao serviço da Citroën Competition.
Francisco Romãozinho fez uma prova espectacular e colocou o DS 21 no terceiro lugar da geral, ficando apenas atrás dos Alpine Renault A110 de Jean Luc Therier e Jean-Pierre Nicolas.
De mãos dadas com Portugal
A trajetória do «boca de sapo» está inevitavelmente ligada a Portugal. Segundo o ID-DS Automóvel Clube, estima-se que existam cerca de 600 Citroën DS no nosso país, um número que ajuda a explicar a relação especial dos portugueses com este modelo.
E não se fica por aqui: o «boca de sapo» chegou mesmo a ser montado em Portugal, durante os anos 70, na unidade de produção da Citroën em Mangualde.
Por ser tão singular, por ter nascido sem qualquer ambição desportiva e pela sua imagem tão arrojada, o Citroën DS continua a manter o estatuto de carro mais invulgar ou intrigante de sempre a vencer o Rally de Portugal. E tudo indica que dificilmente o perderá…
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