Apesar do domínio atual dos SUV - ao ponto de praticamente todas as marcas terem pelo menos um -, nem sempre este tipo de carro foi uma aposta óbvia.
A Honda, na verdade, conhece bem o território: HR-V e CR-V são nomes familiares há muito. Ainda assim, se voltarmos cerca de duas décadas, quando os SUV eram um fenómeno quase limitado aos EUA (e, por cá, o que havia eram sobretudo jipes…), o construtor japonês mostrava-se reticente em avançar com uma proposta deste género.
Também é importante lembrar o que eram os jipes nessa altura: nada de máquinas domesticadas como muitas das propostas atuais. Eram feitos para levar pancada fora de estrada e para encarar todo o tipo de piso, sem dramas com jantes de 51 cm num passeio - até porque isso nem era tema. Mas já estou a fugir do assunto…
A prudência da Honda tinha fundamento. Os estudos de mercado apontavam para um crescimento da popularidade dos SUV, mas o investimento e o risco de desenvolver um modelo próprio eram elevados. A forma mais sensata de reduzir custos e incerteza seria recorrer a um acordo com outro fabricante.
Um Honda… Discovery
E essa via já era conhecida da casa. Antes de a Rover passar para as mãos da BMW, Rover e Honda mantinham uma colaboração próxima. Quem não se lembra dos Rover 200, 400 e 600? Partiam de bases como o Honda Civic e o Accord, ainda que, na maioria dos casos, contassem com mecânicas próprias. Se essa partilha funcionava num sentido, nada impedia que pudesse funcionar no sentido inverso.
A Rover detinha a Land Rover, e esta tinha apresentado em 1989 o Discovery - um modelo colocado de forma estratégica entre o Range Rover, maior e mais luxuoso, e o Defender, mais espartano e um dos «puros e duros» originais. Para a Honda, era um candidato ideal para medir a aceitação de um SUV com o seu emblema.
Foi assim que a marca japonesa comprou à Land Rover os direitos para comercializar o Discovery com o símbolo Honda, rebatizou-o de Crossroad e começou a vendê-lo no Japão. Sim, tratava-se apenas de uma operação de rebatismo e troca de emblemas.
A carreira comercial decorreu entre 1993 e 1998, sempre na carroçaria de cinco portas e com o mesmo V8 a gasolina do modelo britânico. Para lá do Japão, o Crossroad também chegou à Nova Zelândia.
O primeiro SUV próprio não tardou
Quando a BMW comprou a Rover, o entendimento entre a Honda e a marca britânica acabou, o que ajuda a explicar os curtos cinco anos de vida do Crossroad.
Entretanto, a Honda já tinha dado o passo seguinte com um SUV genuinamente seu: o CR-V, revelado em 1995.
A filosofia era claramente mais citadina, e as aptidões fora de estrada estavam longe de ser a prioridade. O resultado foi tão positivo que já conta com cinco gerações de sucesso continuado e tornou-se o modelo mais vendido da Honda.
O nome Crossroad, contudo, não ficou arrumado. Em 2007, a Honda recuperou a designação para um novo SUV/crossover que, no Japão, assumiu o papel de substituto do HR-V.
Sem o utilitarismo ou as capacidades do Disco… perdão, do primeiro Crossroad, esta segunda utilização do nome apontava para um registo bem mais urbano, com lotação para sete pessoas. Ainda assim, podia ser equipado com tração às quatro rodas.
O Crossroad não foi o único «falso» Honda
Contam-se pelos dedos as marcas que, em algum momento da sua história, nunca tenham recorrido a um modelo de outro fabricante para o vender como se fosse seu.
No caso da Honda, além do Crossroad, existiu outro SUV “emprestado” na gama. O Honda Passport surgiu precisamente em 1993, no mesmo ano do Crossroad, e serviu igualmente para testar a recetividade do mercado a um SUV com o emblema Honda.
Desta vez, o acordo foi com a também japonesa Isuzu, que tinha no portefólio o Rodeo. O Passport foi direcionado ao mercado norte-americano, pelo que o facto de o Rodeo ser produzido nos EUA terá pesado na escolha da Honda.
Se o Passport vos soa familiar, é porque também o tivemos por cá - embora não como Honda nem como Isuzu, mas sim como Opel Frontera. O Isuzu Rodeo assumiu várias identidades conforme o mercado onde era vendido: um verdadeiro modelo global.
Ao contrário do que aconteceu com a Rover, a parceria com a Isuzu prolongou-se bastante mais, até 2002, e ainda houve espaço para uma segunda geração.
O fim da relação acabou por surgir com a crescente influência da GM na Isuzu. Isso levou a Honda a criar internamente um sucessor: o Pilot, lançado em 2002. Este SUV, pensado para o mercado norte-americano, continua atualmente em produção.
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