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Novo estado quântico em CeRu4Sn6 revela fase de semimetal topológico na criticidade quântica

Cientista em laboratório manipula cristal holográfico projetado numa máquina com gráficos num ecrã.

Um estado quântico da matéria surgiu num material onde os físicos consideravam isso impossível, obrigando a repensar as condições que controlam o comportamento dos eletrões em determinados materiais.

A descoberta, realizada por uma equipa internacional de investigadores, poderá orientar avanços em computação quântica, aumentar a eficiência de componentes eletrónicos e permitir tecnologias de deteção e de imagiologia mais avançadas.

CeRu4Sn6, criticidade quântica e a fase de semimetal topológico

O estado observado - descrito como uma fase de semimetal topológico - tinha sido previsto teoricamente para temperaturas baixas num material formado por cério, ruténio e estanho (CeRu4Sn6), antes de experiências confirmarem a sua existência.

Quando é arrefecido a temperaturas extremamente baixas, o CeRu4Sn6 atinge criticidade quântica: um ponto em que o material fica no limiar entre alterações de fase, num regime tão frio que as flutuações quânticas dominam. Nesse cenário, em vez de um “nevoeiro” de partículas, o material comporta-se, na prática, como uma espécie de “poça” de ondas.

A viragem inesperada deste estudo é que a criticidade quântica pode gerar estados que se pensava serem definidos por interações entre partículas - como o modo como os eletrões se comportam enquanto portadores discretos de carga.

“Este é um passo fundamental em frente”, afirma o físico Qimiao Si, da Rice University, nos EUA.

“O nosso trabalho mostra que efeitos quânticos poderosos podem combinar-se para criar algo totalmente novo, o que pode ajudar a moldar o futuro da ciência quântica.”

Topologia: quando a geometria protege propriedades dos eletrões

Em física, topologia refere-se à geometria das estruturas dos materiais. Certos estados topológicos conseguem proteger propriedades das partículas, ao contrário do que acontece quando partículas vizinhas se empurram e acabam por perturbar o comportamento umas das outras.

Em geral, compreender estados topológicos implica “coser” propriedades em mapas do tipo partícula - algo que, segundo a perspetiva tradicional, um material não deveria apresentar sob criticidade quântica.

Tanto a criticidade quântica como a topologia são valiosas em materiais, mas por razões diferentes. Reunir as duas no mesmo sistema poderá abrir caminho a uma nova classe de materiais, com grande sensibilidade nas respostas quânticas e, ao mesmo tempo, estabilidade fiável.

O efeito Hall sem campo magnético e a assinatura topológica

Ao arrefecerem o CeRu4Sn6 para perto do zero absoluto e ao aplicarem uma carga elétrica, os investigadores observaram nos eletrões que transportavam corrente através do material um fenómeno conhecido como efeito Hall. Em termos simples, a corrente desviou-se lateralmente.

Segundo a equipa, isto foi um sinal inequívoco de efeitos topológicos. Normalmente, o efeito Hall requer um campo magnético para desviar os eletrões, mas aqui não existia qualquer campo magnético. Em vez disso, a trajetória da corrente estava a ser moldada por algo intrínseco ao próprio material.

“Este foi o principal ponto que nos permitiu demonstrar, sem margem para dúvidas, que a visão dominante tem de ser revista”, diz a física Silke Bühler-Paschen, da Universidade de Tecnologia de Viena.

Além disso, os cientistas verificaram que o efeito topológico era mais intenso precisamente onde o material era mais instável no que respeita aos padrões eletrónicos; as flutuações críticas quânticas acabaram por estabilizar a fase agora identificada.

Próximos passos: generalidade do estado e condições exatas

Ainda há muito por fazer. Os investigadores querem perceber se este estado quântico pode ser encontrado noutros materiais, de forma a avaliar até que ponto o fenómeno é geral.

Também pretendem examinar com mais detalhe a topologia observada neste caso e as condições exatas necessárias para que ela seja possível.

“As conclusões colmatam uma lacuna na física da matéria condensada ao demonstrar que interações fortes entre eletrões podem dar origem a estados topológicos, em vez de os destruir”, afirma Si.

“Além disso, revelam um novo estado quântico com uma importância prática substancial.”

“Saber o que procurar permite-nos explorar este fenómeno de forma mais sistemática”, acrescenta.

“Não é apenas uma perceção teórica; é um passo no sentido de desenvolver tecnologias reais que tirem partido dos princípios mais profundos da física quântica.”

A investigação foi publicada na Nature Physics.

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