A situação é conhecida em quase todas as cozinhas: a massa está pronta, tira-se o tacho do lume, passa-se para o escorredor no lava-loiça - e a água a ferver desaparece a toda a velocidade pelo ralo. É rápido, dá jeito, é rotina. Só que, debaixo da bancada, esse gesto aparentemente inofensivo pode, com o tempo, pesar na cozinha, na canalização e até no orçamento lá de casa.
Porque é que a água a ferver da massa enfraquece os tubos com o passar do tempo
Em muitas casas, as tubagens de escoamento por baixo do lava-loiça são de PVC. É um plástico resistente, mas sensível a temperaturas elevadas: a partir de cerca de 60 a 70 graus começa a amolecer. Já a água da massa costuma estar perto dos 100 graus. Quando se despeja este líquido repetidamente, directamente no esgoto, o material é empurrado vezes sem conta para o limite do que aguenta.
As zonas mais vulneráveis são, sobretudo:
- Curvas do tubo logo por baixo do lava-loiça
- Transições entre peças diferentes da tubagem
- Vedantes de borracha ou silicone
Nestes pontos, o calor pode provocar pequenas deformações. Do lado de fora, não se vê nada - e é precisamente por isso que os problemas aparecem mais tarde. A isto soma-se outro factor: as tubagens alternam entre água muito fria e descargas súbitas de conteúdo a ferver, o que funciona como um verdadeiro choque térmico para o material.
"Choques térmicos regulares provocados por água a ferver da massa fazem com que tubos de PVC e vedantes envelheçam mais depressa - muitas vezes sem dar sinais, até chegar a primeira conta."
Com o tempo, os vedantes de borracha perdem elasticidade e começam a ganhar microfissuras. Ao início, são apenas algumas gotas que se infiltram na zona do rodapé do móvel inferior. Mais à frente, a madeira incha, aparece bolor e, por vezes, até a parede fica manchada. O que parecia um “detalhe” acaba, de repente, no canalizador e na loja de mobiliário.
Num simples serviço de substituição/ajuste no escoamento, as contas podem facilmente ficar entre 80 e 200 euros. Se for preciso trocar um móvel inferior já inchado, ou se o chão também tiver sido afectado, a despesa sobe depressa para valores na casa das centenas altas de euros.
Tubos colados: como a fécula e a gordura se juntam num pesadelo
A temperatura é apenas metade da história. A outra metade é o que vai dissolvido na água quente: a fécula (amido). É ela que torna a água da massa turva e ligeiramente viscosa - e essa textura é especialmente problemática dentro dos tubos.
Quando o líquido carregado de fécula passa pelo ralo, deixa uma película fina e pegajosa nas paredes da tubagem. A partir daí, outros resíduos aderem com muito mais facilidade, como:
- Migalhas e restos de comida
- Pequenos pedaços de massa ou grãos de arroz
- Restos de molhos
- Gordura da frigideira ou da loiça
Em contacto com gorduras, forma-se uma massa espessa que, numa primeira fase, apenas reduz a secção útil do tubo. Com o tempo, transforma-se num tampão cada vez mais duro. Há profissionais que comparam estas incrustações a um bloco de betão dentro da canalização, tal é a teimosia com que se agarram.
Muitas pessoas acreditam que usar água muito quente é sinónimo de limpeza a fundo. Depois de lavar uma frigideira gordurosa, há quem despeje um tacho de água a ferver, na esperança de “arrastar tudo”. O resultado engana: a gordura derrete por instantes, avança apenas um pouco e volta a solidificar onde a tubagem está mais fria. A fécula funciona como cola e fixa a mistura no sítio.
"A água quente dissolve a gordura apenas nos primeiros centímetros. Mais fundo no tubo, a mistura com fécula muitas vezes endurece e transforma-se num tampão quase impenetrável."
Escorrer a massa sem pôr em risco o lava-loiça e a canalização
A boa notícia é simples: ninguém precisa de deixar de comer massa. O que importa é a forma como a água é descartada. Com pequenas mudanças, dá para reduzir bastante o desgaste das tubagens.
Como lidar com a água da massa de forma mais segura na cozinha
- Em vez de despejar directamente no lava-loiça, coloque um tacho grande ou uma taça dentro da pia e escorra aí.
- Deixe a água da massa arrefecer no recipiente até ficar apenas morna.
- Só depois despeje aos poucos no ralo, deixando correr água fria em simultâneo.
- Retenha resíduos maiores com um coador, antes de chegarem ao sifão.
Quem cozinha massa com frequência pode ainda ganhar o hábito de não enviar toda a água para o esgoto. Uma parte pode ser reaproveitada e dar bastante jeito.
Usos práticos em vez de deitar fora
Rica em fécula e ligeiramente salgada, esta água pode ser surpreendentemente útil no dia a dia:
- Para ligar molhos: um pouco desta água torna muitos molhos mais cremosos, sem precisar de adicionar natas.
- Para gratinados e pratos na frigideira: um pouco na frigideira ajuda a soltar os resíduos e cria uma base mais aveludada.
- Para plantas (sem sal): se não tiver sal e estiver fria, pode ser usada para regar, porque a fécula pode estimular microrganismos no solo.
Atenção: para plantas de interior ou jardim, use apenas restos sem sal e deixe arrefecer completamente. O sal prejudica muitas plantas a longo prazo e pode “estragar” a terra.
Manutenção suave dos tubos em vez de químicos agressivos
Para manter a canalização a funcionar bem durante anos, vale a pena evitar medidas extremas. Água a ferver, produtos corrosivos ou granulados agressivos para desentupir acabam por fazer mais mal do que bem. Não atacam apenas as gorduras: também degradam plásticos e vedantes.
Há soluções caseiras simples que costumam resultar:
- Água morna, não a ferver: deixar correr regularmente para ajudar a remover depósitos leves.
- Sal grosso: de vez em quando, colocar no ralo e enxaguar com água morna para soltar películas superficiais.
- Fermento em pó ou bicarbonato de sódio com vinagre: a reacção faz espuma, ajuda a desprender películas de gordura e restos de comida, sem agredir tanto o material como químicos fortes.
Se notar que a água começa a escoar mais devagar, o melhor é agir cedo: limpar o sifão, verificar o ralo/coador e aplicar um destes métodos. Quanto mais se adia, mais o tampão endurece dentro da tubagem.
O que pode estar por trás de cheiro a mofo e móveis de cozinha húmidos
Muitos estragos não começam com um “rompimento” evidente. Muitas vezes, os primeiros sinais são um cheiro a bafio junto ao lava-loiça ou bordas ligeiramente inchadas no móvel inferior. Por vezes surgem manchas escuras no canto ou na parede atrás da cozinha.
A origem costuma ser uma microfuga em uniões ou vedantes que, semana após semana, deixa passar pequenas quantidades de água. O mais traiçoeiro é que peças amolecidas pela água a ferver podem, no uso diário, parecer vedar normalmente - até ao momento em que cedem sob maior esforço.
"Um sifão a pingar passa muitas vezes despercebido durante muito tempo, porque a água desaparece atrás de rodapés e cantos do móvel - e o estrago cresce sem se ver."
Ao detectar estes sinais, não vale a pena esperar até a aglomerado de madeira ficar completamente deformado. Uma verificação atempada por baixo do lava-loiça e a troca de um vedante ficam muito mais baratas do que um móvel novo e um chão danificado.
Porque compensa mudar pequenas rotinas na cozinha
Afastar-se um pouco do hábito - deixar de despejar água a ferver da massa directamente no esgoto - traz várias vantagens ao mesmo tempo. Tubos e vedantes duram mais, o risco de entupimentos baixa de forma clara e, quando há problemas, evita-se gastar centenas de euros em reparações e mobiliário.
Se, além disso, fizer o possível para não deixar restos de comida desaparecerem pelo ralo e para deitar a gordura no lixo indiferenciado, reduz a carga em todo o sistema de escoamento. Isso também diminui a probabilidade de entupimentos mais abaixo na coluna do prédio ou na rede da habitação, situações que facilmente viram assunto colectivo - e ainda mais caro.
Em suma, a água da massa não deve ir em jorro directo para o ralo. Com algum arrefecimento, gestos simples e mais atenção ao que cai no lava-loiça, é possível evitar danos na cozinha e na carteira com surpreendente facilidade.
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